Headley Grange

Desde muito cedo eu escuto histórias de grandes bandas que optaram por gravarem seus discos em locais inusitados, geralmente locais afastados e isolados, onde a banda ficava por algumas semanas, imersos em seu processo de criação.

Uma casa confortável, um bom set de gravação, e toda a liberdade e condições para fazer tudo o que qualquer músico mais ama.

Fazer música!


Este post é sobre uma das casas mais famosas, a Headley Grange.




Este casarão na Inglaterra foi construído em 1795, e muitas histórias de conflitos e destruição foram presenciadas por esta mansão nos seus mais de 200 anos.

Provavelmente, a maior lembrança musical que teremos desta casa será a icônica e gigantesca bateria de "When the leeve breaks", gravada pelo master eterno John Bonhan.

Não podemos jamais esquecer de "Stairway to heaven", que certamente é um dos maiores clássicos do rock de todos os tempos.

O álbum Led Zeppelin IV vendeu mais de 40 milhões de cópias em todo mundo, e é um dos discos mais importantes da história.


Era o quarto álbum da banda, e o produtor Jimmy Page convenceu seus colegas e o engenheiro Andy Johns (irmão do Glyn Johns) a ficarem algumas semanas longe da cidade e imprensa para se concentrarem na produção deste disco, que foi um dos discos mais vendidos da história da música.


Veja a baixo este vídeo caseiro maravilhoso daquele momento ao som da versão demo e rara de Stairway to heaven




O vídeo a cima é sensacional, e a qualidade da banda fica explícita em uma simples demo.


Embora a mansão tenha ficado mundialmente famosa por ter sido usada pelo Led Zeppelin em dois discos (Led IV e Physical Graffiti), muitas outras grandes bandas e artistas gravaram no Headley Grange, como Genesis, Fleetwood Mac e muitos outros, sempre usando a unidade móvel dos Rolling Stones, um estúdio construído dentro de um caminhão.


A casa ainda existe e é usado como residência particular, mas todo baterista sonha em conhecer, ou quem sabe até tocar uns loops naquela sala com a escadaria que ressoou grandiosamente durante a interpretação das baterias da música "When the leeve breaks", que é um dos loops mais usado na industria da música.


A letra da música se baseia nas inundações que mataram milhares de pessoas em 1927 no Mississipi, e foi escrita por Kansas Joe McCoy e Memphis Minnie e lançada em 1929.

Você pode ouvir a versão original aqui.

A banda já havia tentado gravar esta música antes, mas os caras não ficaram satisfeitos com os resultados até então, e a atmosfera criativa e a energia do casarão Headley Grange era o que faltava para a conclusão da música, que foi gravada em dezembro de 1971.


Uma dessas versões foi lançada em uma reedição do Coda em 2015, e você pode ouvir aqui.


Como dito antes, o equipamento de gravação foi a unidade móvel dos Rolling Stones, um estúdio com bela estrutura preparada em um caminhão.

Andy Johns teve a brilhante idéia de gravar o kit de Bonham no corredor principal, que tinha uma escada de três andares acima dela. Neste ponto da casa a altura do "pé direito" era enorme, criando um som gigantesco e contribuindo vibração e energia que é explícito nesta track.

O mais impressionante é que Andy usou apenas 2 microfones Beyerdynamic M160s posicionados na escadaria mirando para o kit. Ele não usou outros microfones direto nas peças e isso era no mínimo corajoso

O som veio exclusivamente das mãos de John Bonhan e as reflexões da acústica peculiar daquele lugar.

Os dois microfones criaram um sinal estéreo que foi bastante comprimido e depois passados no delay de fita Binson Echorec do Jimmy Page.

Este efeito criado pelo delay tem um papel crucial na sonoridade final da faixa, adicionando um slap delay bem curtinho, dando movimento genial.





Outro fato muito curioso é que antes de gravarem os overdubs por cima da bateria, Andy diminuiu a velocidade da fita deixando a bateria ainda mais pesada e grave.


O Kit de Bonhan


Acredito que quase todo baterista sonha em ter o famoso kit Ludwig Vistalite transparente que ficou famoso nas mãos do Bonzo, entretanto, em todas as gravações ele usava os kits de em maple.

Bonhan só passou a usar as bateras de acrílico a partir de 1973.

O que se sabe é que ele estava usando um kit novinha que a fabricante havia lhe enviado, e muito provavelmente era um Ludwig Green Sparkle


Bumbo 26" x 14"

Caixa 14" x 6,5" LM402 Supraphonic

Tom 14"

Surdos 16" e 18"



Os pratos usados foram os seus preferidos:

Giant Beat da Paiste

Ride 24", HiHat 15" e crashs 16" e 18"

Em 1971 a Paiste criou a linha 2002 e Bonzo passou a usar esta linha também.


Bonham usou no bumbo a pele ressonante da Ludwig, com tiras de feltro e não fez buracos na pele, deixando intacta a pele ressonante.

Para afinação, Bonham preferia os tambores com as peles ressonantes afinadas mais agudas que as peles batedeiras. O bumbo também foi afinado bem alto, e funcionou bem devido ao tamanho gigante de 26".

Rezam as lendas que Bonham gostava do som das peles um pouco velhas e ele só trocava quando era absolutamente necessário. Certamente em 1970 eram peles novas pois o kit da Ludwig era novinho!


Imagina que sonho!

Uma casa incrível, um engenheiro de som fantástico e equipamento de ponta. Junte a isso um dos caras mais fantásticos na história da bateria, com uma percepção musical e ritmo de um gênio, este cara é John Bonhan!

No vídeo a seguir Andy Johns fala:

- Aquele som da maravilhoso de bateria vinha da mão do cara!


Veja no vídeo a seguir o próprio Andy falando sobre esta gravação




A bateria de When The Levee Breaks é uma das aberturas mais reconhecíveis no mundo do rock, e é instantaneamente .

E por ter alguns segundos somente de bateria na introdução da música, ela foi amplamente amostrada e loopada por diversos artistas, especialmente no hip hop.

Aqui uma lista de alguns que se apropriaram dela:


  • Björk (Army of Me)

  • Massive Attack (Man Next Door)

  • Karnivool (Simple Boy)

  • Sophie B. Hawkins (Damn I Wish I Was Your Lover)

  • Enigma (Return To Innocence)

  • Beastie Boys (Rhymin & Stealin)

  • Eminem (Kim)

  • Ice-T (Midnight)

  • Dr. Dre (Lyrical Gangbang)

  • Simple Minds (Real Life)

  • Anthrax (Who Put This Together)


Sim, você pode estar dizendo:

- Mas o post não era sobre o Headley Grange?


Sim, mas é impossível para mim falar sobre este lugar sem lembrar de John Bonhan.

Se você quer saber mais sobre a história da casa e seus muitos conflitos acesse esse link

aqui: http://www.johnowensmith.co.uk/riot/index.htm


A seguir mais uma foto de uma grande banda que usou o casarão para gravar.

GENESIS



De pé, a esquerda nosso mestre Phill Collins


Na minha pesquisa sobre o casarão, constatei que a paixão pelo som do John Bonhan e a mística por trás daquela mansão faz parte de um consciente coletivo baterístico geral, pois outros grandes nomes do nosso instrumento também vibram ao falar do assunto.


No vídeo a seguir vocês podem assistir uma entrevista muito legal com Chad Smith, batera maravilhoso do Red Hot Chilli Pepers, que naquela oportunidade foi convidado a conhecer o Headley Grange, e é possivel ver a emoção e excitação que ele estava no momento.



O Red Hot Chilli Peppers também tem uma história maravilhosa sobre gravação de um disco em uma casa isolada.

Em 1991, a banda chamou Rick Rubin para a produção do disco e este sugeriu que todos eles fossem gravar em um local mais isolado e inusitado para assim reforçar o foco naquele propósito, e a sugestão dele foi na The Mansion, que certamente será tema de um novo post aqui no blog.


Mas só pra se ter idéia, esta casa pertenceu ao famoso ilusionista Harry Houndini e as histórias sobre assombrações na casa datam há décadas. Sabendo disso Chadd optou por não dormir na casa, indo de motocicleta diariamente até a mansão.



Acima vemos Chadd durante as gravações de bateria na mansão.


Diversas outras bandas gravaram nesta casa após o sucesso do disco do RHCP, como Slipknot, Audioslave, Linkin Park, System of a down e muitos outros, com direito a fotos de espíritos e experiências no mínimo macabras, mas fica para um próximo post.

Hoje a casa pertence ao produtor Rick Rubin.


Espero que vocês tenham curtido este post e ele te dê inspiração para escolher uma casa bem massa para a gravação do próximo disco da sua banda.


Um abraço,

Juliano

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